sábado, 23 de janeiro de 2010

Por quem os sinos dobram


Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.
Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa -
Para sempre está perdido
o que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.
E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.


Sophia de Mello Breyner,
Nunca mais




Desculpem. Hoje é a sério.
Ele era o miúdo mais giro do liceu e ela uma miúda apagada, entre a miríade de garotas adolescentes. Não fosse ser a mais inteligente de todas e a que tinha um futuro mais promissor, ele nem sequer teria olhado para ela duas vezes. Quando ficaram na mesma turma, ele percebeu que se estudasse com ela, ficasse ao seu lado nos testes e fizesse parte do seu grupo de trabalhos, faria a escola secundária com a maior das facilidades. Seguiram juntos para a universidade e para a vida. Nem os amigos dele percebiam porque é que permitia que aquela mosquinha morta o seguisse para todo lado, nem as amigas dela percebiam aquela paixão por um fulano que tinha os olhos virados para o umbigo e só gostava dele mesmo. Acabado o curso casaram, seguindo o que aparentemente parecia ser o rumo natural das suas vidas, mas que ninguém percebia. Um bom curso, um bom emprego, uma boa casa. A história acabaria aqui e nem sequer seria original. Mas não acabou.
A primeira vez que ele a atingiu, ela ficou a matutar no que poderia ter-lhe acontecido durante o dia. Desdramatizou o sucedido. Fora só uma bofetada sem consequências. Os dedos mal lhe tocaram. Talvez ele se tivesse chateado no emprego, talvez estivesse com dor de cabeça. Não merecia a pena empolar a situação. Quem sabe, fora somente uma cervejinha a mais. Não fora ele, claro! Fora o alcool. Ele não seria capaz de lhe levantar a mão. Quem ama não maltrata!
A segunda vez que a mão dele a atingiu em cheio na face, deixando-lhe um rasto de fogo e dor na pele, ela ficou a matutar no que pudera ter feito para lhe provocar tamanha ira. Quem sabe, por ter ajudado os miúdos a tomar banho, ou o jantar tivesse ficado cozinhado demais e sem sabor. Talvez ele se tivesse sentido posto de parte por ela ter conversado com a mãe ao telefone mais cinco minutos do que na semana anterior. Ou então, seria por se ter esquecido de lhe pregar o botão das calças que ele queria exactamente vestir nesse dia e não nenhum dos outros cinco pares pendurados no roupeiro. Ou a nódoa que não saiu da t-shirt depois do último jantar com os amigos dele no sábado à noite, e que ela não se lembrou de esfregar à mão. Tudo por culpa dela. Tinha de estar mais atenta. Aquilo fora concerteza uma chamada de atenção, como se ela fosse uma garota da escola que precisasse de castigo por não ter feito os trabalhos de casa. Quem ama educa!
À terceira vez, o sangue escorreu-lhe pelo nariz e salpicou o tapete, os filhos choraram agarrados às suas pernas e ela ficou a matutar no porquê sem encontrar uma razão. Contou á mãe. A mãe aconselhou-a a não dizer nada, a fazer de conta que nada sucedera e a ser mais amorosa com ele. Os homens tinham dessas coisas. E às mulheres cabia compreender. Não, não se contava fora de casa o que acontecia entre marido e mulher! Que vergonha! O que é que as pessoas iam pensar? Que ela não sabia cuidar da casa, dos filhos, do marido? Trabalhava fora pois sim, como todas as outras, isso que tinha? Ela tinha um curso superior, era jovem e bonita e bem cotada profissionalmente, mas em casa era apenas uma mulher e esposa e tinha de se comportar como tal. O pai fizera o mesmo em determinada altura da sua vida. Depois passara-lhe. Fora uma fase. Ela ia ver que as coisas haveriam de melhorar. Só tinha que ser mais cuidadosa e... Boca fechada! Quem ama não conta!
Da quarta vez, ela nem se preocupou em encontrar uma razão. Apenas procurou encontrar uma boa desculpa para justificar as nódoas negras e a costela partida aos seus amigos e colegas de trabalho. Uma amiga deu-lhe um cartão com um número de telefone, discretamente e com um sorriso cúmplice. Ela olhou o número, telefonou e quando a voz do outro lado anunciou o nome da entidade para quem ligara, ela simplesmente desligou o telefone furiosa e incomodada. Que disparate! Ela lá precisava de ajuda? Tinha um bom emprego, ganhava bem, era culta e inteligente. Valia-se a si própria. Não precisava da ajuda de ninguém, muito menos dum grupo de mulheres que apregoava ao resto do mundo os maltratos dos maridos, companheiros, namorados. Era só uma fase. Ela não era nenhuma mulher maltratada, nem desvalida. Aquilo ia passar. Quem ama perdoa!
Da quinta vez que aconteceu, já estava habituada. É incrível o tipo de coisas a que o ser humano se habitua! Seria amor? Seria preguiça da sua parte? Acomodação? Medo? Sabia lá! Acordou no hospital. Mais costelas partidas, um pneumatorax ligeiro, o nariz quase desfeito. Uma das enfermeiras não acreditou na sua desculpa de ter caído pela escada. Era uma desastrada e distraída e ainda não aprendera a andar de saltos altos.
- Está bem. Então antes de aprender a andar de saltos altos, e antes que se mate, telefone a quem a possa ajudar a aprender a caminhar. - Disse a enfermeira com preocupação. Já tinha visto tantas mulheres assim! Umas voltavam para casa e regressavam, ano após ano, mês após mês, dia após dia. Outras já não regressavam. Entravam directamente para a cave, um corredor mal iluminado e a cheirar a formol e desinfectante, e ficavam ali deitadas numa cama de aço, um lençol por cima a tapar o corpo massacrado e uma etiqueta no dedo grande do pé. Ela encolheu os ombros. Quem ama não mata!
Da sexta vez, ela tapou a cabeça com as mãos e encolheu-se quieta num canto, esperando que a fúria dele se esgotasse. O sangue jorrou-lhe do nariz, dos ouvidos, até dos olhos. Nunca pensara que o seu corpo conseguisse aguentar tanta dor. O cérebro parecia ter-se diluído com as pancadas, encurralado entre uma caixa cerebral que estalava a cada soco. Quem ama... Quem não faz o quê?
Não houve uma sétima vez. Entrou no hospital já coberta por um saco de plástico grosso com fecho. Seguiu para o corredor mal iluminado. Ficou em paz e sossego numa cama de aço a engrossar as estatísticas.
À Joana. Amor mata!
 


O Estado das coisas (nos media):
«[...] Jornalista: Na sua opinião, uma mulher agredida pelo marido deve manter o casamento ou divorciar-se?
Monsenhor LG: Depende do grau da agressão.
Jornalista: O que é isso do grau da agressão?
Monsenhor LG: Há o indivíduo que bate na mulher todas as semanas e há o indivíduo que dá um soco na mulher de três em três anos.
Jornalista: Então reformulo a questão: agressões pontuais justificam um divórcio?
Monsenhor LG: Eu, pelo menos, se estivesse na parte da mulher que tivesse um marido que a amava verdadeiramente no resto do tempo, achava que não [...]»
(Monsenhor Luciano Guerra, Reitor do Santuário de Fátima; entrevista ao DN, 6.10.2007)

Eu não comento. Só pergunto: alguém me sabe explicar o que é isso do amor com intermitência? Hoje amo-te, amanhã bato-te e depois de amanhã volto a amar-te se não me apetecer voltar a bater-te?

Actualmente registam-se cerca de 76 queixas diárias de maus tratos, violência doméstica por dia. POR DIA! São cerca de 3 queixas por hora. Ou seja, a cada 20 minutos, alguém é agredido e apresenta queixa. E os outros? Os que se calam? Quantos são?

Linha telefónica de informação ás vítimas de violência doméstica: 800 202 148
Onde pode apresentar queixa?
APAV - Associação Portuguesa de Apoio à Vítima
NMUME - Núcleo Mulher e Menor, Guarda Nacional Republicana
Posto da GNR
Esquadra da PSP
Polícia Judiciária
Ministério Público
Ministério da Administração Interna (Pode apresentar queixa por via electrónica)
Instituto de Medicina Legal (Lisboa, Coimbra e Porto)
Gabinetes Médico-Legais a funcionarem nos Hospitais


As manias das mulheres

Primeiro as senhoras. Que é para os homens não protestarem já:
- O quê? Nós outra vez?
Isto, aviso eu, é pura estratégia feminina.

Porque é que as mulheres falam tanto?

Uma pesquisa realizada nos EU (Muito pesquisam eles!) mostrou que os homens usam por dia um mínimo de 1500 palavras e as mulheres o dobro. No congresso onde este estudo foi apresentado, uma mulher levantou-se e tentou justificar-se:
- É natural que falemos mais. Invariavelmente temos de repetir o que dissémos para os homens nos entenderem.
E o orador perguntou:
- Como assim?

Porque é que as mulheres usam malas que parecem baús ou a bagageira do carro do meu tio Isaac?

Carteira. Porta-moedas que as moedinhas são mais que muitas e têm de ter estojo próprio senão rompem a carteira. Bloco-notas. Canetas, não vá uma deixar de escrever, há que ter pelo menos duas. Lenços de papel, mais do que maço faz sempre jeito. Perfume. Baton (pessoalmente sem este item sinto-me meio despida). Rimel. Blush. Pente. Livro ou revista. Chaves (da casa, da casa dos pais, da casa do namorado, do carro, da arrecadação, do gabinete, da gaveta do cemitério...). Pen. Uma série de papéis do Multibanco e do supermercado.
No mínimo.

Porque é que as mulheres vão em bando à casa-de-banho?

Ora, para além do óbvio, vão obviamente falar dos seus homens. Ah, pois vão! Comentar o que os seus acompanhantes fizeram ou disseram, contar que o loiro giro com ar de pirata do bar não tira os olhos dela, enfim, essas coisas. Ao contrário dos homens que calam pormenores sórdidos das suas mulheres (será?), estes são os primeiros segredos que as mulheres trocam umas com as outras. É no WC que se dão conselhos, se enxugam lágrimas, se destroem relações, se trocam experiências e batons e se dá um toque no penteado novo da amiga.
Claro que também costumamos ir em bando por solidariedade. Invariavelmente não há onde pendurar a mala e... Oh incúria, oh infortúnio, oh desdita! O papel higiénico acabou no mês passado. Uma amiga salva sempre estas situações. Estão a ver agora a necessidade das paletes de lenços de papel na mala?
Enquanto isso, o príncipe-sapo e o sapo-príncipe fazem xixi, esperam, sopram, olham o tecto e um deles ainda tem tempo de ler poesia de Neruda.
Hem??? O que é que eu escrevi? Lê Neruda? E onde anda esse espécimen raro? Onde?

Porque é que as mulheres gastam tanto dinheiro em lingerie?

Desiludam-se. Não é para que os olhos dos homens saiam das órbitas, não. É porque dá um tremendo prazer sabermos que debaixo da camisola de lã, velha e confortável, está uma obra de arte artificial suportando obras de arte da natureza. Faço minhas as palavras que ouvi um médico comentar com um seu colega sobre uma sua paciente das urgências:
- Não há nada mais triste do que uma mulher com umas cuecas rotas ou um soutien velho e desbotado!

Porque é que as mulheres usam decotes e saias curtas?

E passam a vida a puxar o decote para cima e a saia para baixo? Pois, de facto eu não tenho resposta para tudo, mas ou assumem ou não usam. Não é sensual (gosto mais do sensual que de sexy) andarem constantemente a mexer num e noutro, porque se percebe que não estão à vontade.

Porque é que as mulheres substituem um elogio por um comentário negativo?

Casados há vionte anos. O Manel chega a casa com um bouquet de malmequeres.
A Maria, esconde o espanto e a felicidade e comenta:
- Ena! O que é que te deu? Estás doente ou quê?

Porque é quas mulheres consideram o futebol um rival?
Não seria pior para os nossos egos se eles desatassem a ver todos os filmes da Angelina Jolie?

Porque é que as mulheres falam mal dos homens?

Quando eles tentam ajudar e nós continuamos com a mania de que temos de os ensinar para que as coisas saiam como achamos que devem sair? Porque é temos sempre de os comparar com seres perfeitos? Claro que quando uma mulher avalia um homem está sempre a compará-lo com o ser mais perfeito que conhece, que é ela própria.
Deixem fazer! Caso contrário, se forem logo catalogados com a categoria de sub-inútil nunca mais voltarão a tentar.

Porque é que as mulheres são umas cabras umas para as outras?

Os homens entre eles tratam-se abaixo de cão. Com nomes que se as avós deles ouvissem, os habilitava a terem pimenta na língua ou irem à igreja meter a língua na água benta.
- Então, meu grande cab... O que tens feito da put... da vida, meu?
- Eh, FDP, 'tás mais gordo meu!
Quando se despedem e vai cada um para seu lado, comentam sozinhos:
- Eh, pá, gosto mesmo deste gajo!
Não é por mal, é camaradagem.
As mulheres?
Amiga 1: - Achas que este vestido me faz mais gorda, querida?
Amiga 2: - Não! Que disparate! Até te faz mais elegante e realça-te a cor do cabelo.
E enquanto a amiga 1 vai toda lampeira pagar a sua nova aquisição, a amiga 2 comenta entre dentes:
- Realça-te a cor do cabelo oxigenado com raízes pretas à mostra, as banhas e o cu de prateleira... Gorda!

Ah, os homens sorriem? Já lá vamos!

sábado, 2 de maio de 2009

Sade, Masoch e uma pitada de Narcisus

Vão para o diabo sem mim, ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que haveremos de ir juntos?

Álvaro de Campos



Cada vez mais me convenço de que as pessoas gostam mesmo é de sofrer e de fazer sofrer os outros. Corremos a vida jogando numa ou noutra equipa, conforme as fases da Lua ou o sabor das marés. Sádicos e masoquistas? Se concordarmos que os masoquistas são uma sub espécie de sádicos, então só existe mesmo uma espécie na terra.

O masoquista será um sádico estúpido ou um sádico solitário? Sádico porque tem prazer em infligir sofrimento, estúpido porque o inflige a si próprio em vez de ao seu semelhante. Solitário porque, não havendo ninguém por eprto apra massacrar, vira-se contra si mesmo. Estúpido, na mesma! Podia inventar outras brincadeiras como cortar bonecas aos bocados, mas aí a coisa complicava-se...Todos sabemos o que dá brincar com bonecas. Podia transformar-se num sado-masoquista homossexual ou num serial killer sado-masoquista. E se a opção sexual de cada um é lícita e digna de respeito, já o prazer de tirar vidas o não é.

Uma coisa que me aflige especialmente é o masoquismo emocional gregário que todos nós, mulheres e homens, vivemos de moto próprio diariamente. Vamos aos magotes ao cinema, em especial as camadas mais jovens. As mulheres vão ver filmes para chorar, daqueles em que a heroína morre de cancro ao sétimo round ou de dor de alma porque o sádico do namorado a trocou pela avó da mãe da melhor amiga. Depois, nós mulheres detestamos que nos vejam chorar (excepto para impressionar um namorado) e sofrer, e toca a limpar as lágrimas no escuro às pontas dos dedos, às mangas do casaco, às pipocas. Ficamos com o coração a palpitar na garganta, a impedir-nos a respiração. Queremos rebentar em soluços mas aguentamos estoicamente. Porque as nossas lágrimas não são pela triste heroína, mas pelas nossas tristezas que o filme desenterra nos nossos corações. Claro que ninguém apanha um homem numa coisa destas, a não ser que esteja muito masoquistamente apaixonado. São coisas de que eles fogem a sete pés e mãos, inventando as desculpas mais velhas do mundo: levar o cão ao veterinário, tratar duma unha encravada da tia Alice ou aspirar o carro. Ah, mas eles também têm o seu masoquismo gregário. Ah, pois têm! Não tem a ver com as emoções mas com a testosterona. O homem sofre do síndrome masoquista do futebol, vão em magotes ao estádio, sofrer em conjunto, gritar a plenos pulmões e se for possível fazer um arraial de porrada de claques em conjunto. Quanto mais abaixo da tabela está a equipa, mais lhes apetece ver o jogo. E gritam, e pulam e ofendem a mãe do árbitro. Ou então vão ver filmes de porrada e de terror. Cada sexo é masoquista à sua maneira.

Contudo a maior demonstração de sado-masoquismo voyeur é a curiosidade mórbida das pessoas (homens e mulheres incluídos) em enfiar o nariz na cena dum acidente. Quanto mais sangue e membros estropiados, mais o pessoal geme, mas olha! - Ah, Olha! Está ali alguém encarcerado no carro! Xi, está todo partido! (Sádico) - Oh, que horror! O homem não tem cabeça... Mas para que é que eu olhei? (Masoquista).

E que dizer dos sádicos engraçados, os das anedotas sem graça que sabem não ter graça mas que contam na mesma? E contam porque têm à sua volta um grupo de masoquistas que riem sempre, flutuando cheios de felicidade numa piada gasta e dolorosa.

O masoquista chora porque gosta de chorar. Um dia sem dor ou sem lágrimas é um dia perdido. O masoquista precisa de sentir dor para saber que está vivo. Às vezes são geniais e viram artistas que só pintam, escrevem ou compõem no sofrimento.

O sádico ri-se quando não pode e não deve e solta gargalhadas com o que ninguém acha graça. Invariavelmente acabam na gestão de multinacionais ou na política. Porque o sádico tem um trunfo na manga que o faz desanuviar perante o infortúnio do desgraçado que ficou desfeito e encarcerado num monte de sucata na estrada. O sádico alivia-se com o óbvio estridente e eficiente "Dasse", com F, claro. O que o deixa pronto para a próxima vítima, a próxima desgraça, sempre seguindo em frente.

Já o masoquista solta um ai, que mais parece um uivo de lobo ferido e passa o dia a matutar no que viu. Ou então, vira sádico e começa a contar aos colegas o sucedido, com requintes de malvadez e pormenores em technicolor e em relevo.

Falta falar nos sado-masoquistas intelectuais que depois de lerem dirão: - Então e os primórdios do sadismo? O bom Marquês de Sade? E não se fala de Masoch? Bom, esses que se googlem. Têm lá toda a informação para defenderem uma tese.

Ah, falhei os narcisistas, eles próprios uns masoquistas de fina espécie, de acordo com a classificação freudiana. Eles são tudo. Eles são os maiores. Eles querem tudo entregue em bandeja de prata no alto do seu pedestal espelhado. Farão seja o que for para se manterem no alto e serem servidos.

Masoquistas e sádicos, por favor unam-se contra os narcisistas! Ou seremos todos alienados e com bondage (amarrados e imobilizados!), mas é que não tarda nada! Termino com uma história. Não tem graça, não é anedota, sobretudo porque eu adoro gatos ou qualquer outro animal, mas diz muito da filosofia da coisa...

Um zoófilo, um sádico, um assassino, um necrófilo, um piromaníaco e um masoquista estão sentados num banco de jardim, dentro dum sanatório, sem saber como ocupar o tempo.
O zoófilo diz:
- Então, vamos violar um gato?
O sádico responde:
-Vamos violar um gato e depois torturá-lo!
O assassino completa:
- Vamos violar um gato, torturá-lo e depois matá-lo!
O necrófilo continua:
- Vamos violar um gato, torturá-lo, matá-lo e depois violamo-lo outra vez!
O piromaníaco acrescenta:
- Vamos violar um gato, torturá-lo, matá-lo, violá-lo outra vez e atear-lhe fogo!
Segue-se um silêncio, todos olham para o masoquista e perguntam:
- E agora?
Então o masoquista diz:
- Miaaau!

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Requiem

…/…
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir.
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.

Fernando Pessoa
A aranha do meu destino



Não posso viver sem ti!
Não quero viver sem ela!
És a razão da minha vida!
Sem ti não sou ninguém!
Quantas vezes ouvimos isto? Quantas vezes as dissemos ou pensámos? Porque é que entregamos nas mãos dos outros a nossa paz de espírito, a felicidade, a alegria de viver? A troco de quê? Por alma de quem? Pela nossa provavelmente. A fazermos isto, estamos a cantar um requiem por nós mesmos. Quem é que vai viver a nossa vida? Quem é responsável pelas nossas decisões, pelas escolhas e caminhos trilhados? Para quê deitar culpas aos outros por aquilo que não conseguimos aceitar em nós mesmos?
Assim como não somos donos de ninguém, não podemos dar aos outros o poder sobre a nossa vida, desejos e vontade. Um poder que, muitas vezes, nem sequer é pelos outros sonhado. Menos ainda desejado. Não podemos colocar nos seus ombros uma responsabilidade que não lhes compete. Não podemos colocar a felicidade tão longe de nós, muitas vezes mesmo, fora do nosso alcance e dizer como a raposa que está longe e não lhe podemos chegar. Não podemos boicotar a nossa própria vida.
Não são aquelas palavras que são perigosas. É a acção subentendida nelas. “Sem ti não sou ninguém!” Uma acção de anulação do próprio ser, o caminho ideal para a frustração e infelicidade. Uma agressão ao ego. A razão da nossa vida somos nós mesmos. Não nos boicotemos, nem pensemos mal de nós. Afinal quem é que gosta mais de nós senão nós?
Agora, deixemos de ser preguiçosos e pessimistas. Estendamos os braços para alcançar o que está mais perto, mexamos os pés para dar um passinho de cada vez. Assumamos que os nossos problemas financeiros, amorosos ou familiares compete a nós resolver e assumir as escolhas que fazemos.
O Universo quando conspira é para nosso bem. Não para nos arrastar para a escuridão. Mas se corrermos as cortinas na nossa vida, não fiquemos à espera que a luz venha sem mexermos um músculo. Afinal, o sol está lá, mesmo atrás das cortinas, não está?
O Universo, ou Deus não nos dá nada. Empresta. Bens e pessoas que farão parte das nossas vidas para nos ajudar ou ensinar algo. Depois, são levadas de volta e não podemos ficar a chorar por elas, pois nunca foram nossas. Depressa estarão ensinando outros no que precisam de aprender. E nós, teremos de ser capazes de caminhar sozinhos, de estar alegres e de bem connosco. E encontrar o nosso próprio caminho.
Não quereremos ninguém que precise de nós. Não precisaremos de ninguém. E quem vier, há-de vir porque nós somos o seu desejo. E nós ficaremos, porque assim o queremos. Nada mais puro, nem mais verdadeiro, que aquele que chega e sabe que encontrou a sua casa e que nunca mais precisará trancar as portas.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Lamber o cotovelo

Já tentaram lamber o cotovelo? Exactamente. Uma pergunta que anda para aí a circular numa apresentaçao de powerpoint e que, segundo o autor é de impossivel execuçao, mas que 99% dos inquiridos efectivamente tenta fazer.

Bom, eu duvido. Já tentaram mesmo lamber o cotovelo? Pois eu já. Faço parte da estatística, claro. Mas o que não sabem é que eu consigo! Logo, ou eu sou um bicho raro, ou a estatística está errada ou o pessoal não anda tentando e insistindo. E não, não tenho nem os braços curtos nem a língua comprida.

Bom... A língua comprida, só mesmo para responder à letra a quem merece, mas não para engolir sapos nem insectos peçonhentos. Viperina, pois claro, se lidar com serpentes, que as há para aí aos montes.

Pois é, lamber o cotovelo, dizem, é coisa impossível. Não interessando neste caso quem o diz e sob que bases o afirma, científicas ou empíricas, o que é um facto é que é possível, logo poderemos saber do que somos capazes se efectivamente o tentarmos. Uma, duas, n vezes.

Dificil é, evidentemente. São duas posições anti-naturais e inestéticas (Por favor, não tentem fazê-lo em público, a bem da vossa imagem de sanidade mental!).

A conclusão lógica desta retórica é que, não sendo o impossível possível, é sempre possível tentar o impossível. Só para contrariar as estatísticas? Não! Para provar que conseguimos sempre ir mais longe por mais difícil que nos queiram tornar o caminho. Basta tentar...

Ora tentem lá lamber os cotovelos, se fazem favor. Não queiram ser mais uma estatística...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Predador

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.

Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'


Nada neste mundo é mais predador que o ser humano. E o maior predador do ser humano é outro ser humano. Não sei se o que nos motiva é a adrenalina da caça ou o sentimento de omnipotência perante o destino de outrem, um alimento de egos distorcidos.
Há pessoas que só são felizes quando são grandes e a única grandeza que conhecem é caçar o seu semelhante. O predador assusta, porque parece poderoso. Aproxima-se silencioso e mortífero, sem que nos apercebamos do seu ataque e quando damos por nós, estamos irremediavelmente presos na sua teia. De maldade, ou sedução, não interessa. E quanto mais estrebuchamos para nos libertarmos, mais nos enredamos, perdemos por completo o discernimento.
Mas o que me interessa agora, não é saber o que os motiva na caça, mas o que os detém, a esses senhores do medo e da ameaça. O que os detém é a fome. A indiferença. A falta de estímulos para a caçada, a nossa capacidade para ultrapassarmos a nossa indolência e indulgência perante eles e as situações por eles criadas. O que os detém é o nosso poder. É pararmos e fazermos do medo o nosso companheiro e aliado. Assim o medo deixa de ter poder sobre nós e nós somos livres de passar por cima dele. Alguns predadores não suportam ser olhados nos olhos, confrontados com as suas próprias vítimas.
O que os detém é o nosso poder de pararmos e olharmo-nos no espelho. Porque nós também somos predadores de nós mesmos, quando nos perseguimos com a mesma impiedade que os outros, ou quando nos fazemos de vítimas a toda a hora.

Alguém

…/…
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.

António Ramos Rosa,
Não posso adiar o coração



Quero alguém que seja fraco.
Suficientemente fraco para encostar a cabeça no meu peito e chorar se tiver de chorar,
Ou apenas descansar o cansaço do dia.
Quero alguém que seja leve.
Leve o suficiente para me criar borboletas na barriga e cócegas na alma.
Quero alguém que seja esperto.
Suficientemente esperto para ver o meu brilho quando eu me escondo de mim mesma.
Quero alguém orgulhoso.
Não importa quão alto salte na alegria, mas quão orgulhoso consegue caminhar depois de cair no chão.
Quero alguém que seja letrado.
Formado na vida, que saiba ler nos meus olhos e decifrar-me o coração.
Quero alguém que seja forte.
Forte o suficiente para me levantar, levar me até às nuvens e nunca me deixar cair.
Quero alguém que seja pesado.
Suficientemente maciço para suportar os embates da vida e ainda assim permanecer ao meu lado.
Quero alguém com raízes.
Fortemente enraizado na vida como um velho e altivo carvalho cuja sombra a todos refresca.
Quero alguém monstruoso.
Alguém que deixe sair à superfície o monstro enlouquecido da paixão e me inunde, me invada numa torrente de amor.
Quero um carcereiro.
Alguém que me amarre e me ancore à vida, me inspire, me motive, e me ame duma forma que eu nunca conheci antes.
Quero alguém que seja feiticeiro. Alguém que se veja nos meus olhos e perceba que é tudo o que eu sempre fui e quis ser.

Muros, barreiras, trincheiras

"Never take someone for granted.
hold every person closed to your heart
because you might wake up one day
and realize that you've lost a diamond
while you were too busy collecting stones."
Pravsworld



Porque é que as pessoas erguem muros?
Porque é que erguem barreiras e se escondem?
Porque é que cavam trincheiras?
Porque é que as pessoas fecham portas?
Porque é que quando ousam sair de detrás do muro, saem das barreiras e trincheiras e de detrás das portas se esquecem do coração do lado de dentro?
Porque é que as pessoas se fecham em compartimentos estanques e não partilham com aqueles a quem dão a mão, aqueles que partilham a sua vida, mais perto ou mais longe, consoante a distância a que os remetem?

È lícito não se comprometer com outra pessoa. Mas será lícito não se comprometer com o que sonha o coração?

Desabafo de mim em desassossego

…/…
Devastada era eu própria como cidade em ruína
Que ninguém reconstruiu
Mas no sol dos meus pátios vazios
A fúria reina intacta
E penetra comigo no interior do mar
Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos
…/…
porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto,
sem jamais perderem o fio de linho da palavra.
 
Sophia de Mello Breyner
O Minotauro


Sou pelo desassossego.
De-sa-sso-sse-go. É uma palavra interessante. Parece linguajar de serpente. Serpentês, como diria Harry Potter. É misteriosa, difícil e comprida. A língua quase não sai do mesmo sítio mas os lábios têm que se mexer várias vezes para conseguir pronunciar uma palavra destas.
(Já consegui que uma série de pessoas pronunciassem desassossego).
O desassossego espevita-nos, incomoda-nos, faz-nos pensar. O primeiro desassossegado era mestre, o guru da Rua dos Douradores, e escondia-se atrás dum heterónimo mais duro do que a sua própria vida.
Sou pela rebeldia. Detesto rebanhos, ovelhas e multidões. O colectivo é normalmente estúpido, pensando quase sempre pela cabeça que vai à frente, com a força bruta e cega de todos os que vão atrás. Receio mais um grupo de ovelhas comandadas por um leão que um grupo de leões comandados por uma ovelha, como diria Alexandre, o Grande. Pura verdade! Quero lá saber se às vezes faço papel de tola. Com o tempo que vamos durando na vida, aprendemos a não ligar às figuras que os outros acham que fazemos, ao julgamento alheio. Felizmente! Os outros não vivem a nossa vida. E enquanto estão embasbacados a olhar, comentar, rir ou a abanar a cabeça, espiolhando a nossa vida, a vida deles é o que lhes acontece. E quando derem por ela, já foi!
Há um dia em que acordamos e perguntamos onde raio é que deixámos os sonhos, assim como quem procura os óculos perdidos algures. E percebemos que o que sonhámos talvez não tivesse a importância que lhe atribuímos, ou que então está na hora de começar a lutar por aquilo que realmente é importante para nós. Isso é desassossego.
Às vezes gosto de pôr tudo em causa. Para perceber se o que sou, o que tenho e por onde caminho são realmente as minhas escolhas certas, aquelas que o coração voltaria a escolher de novo, mesmo que a cabeça proteste. Porque vamos pelo coração. Sempre! Desenganem-se os que vão pela lógica ou por interesse. Um dia descobrirão que estão perdidos, que se perderam em busca do sossego. Sou pelo desassossego que nos dão as escolhas do coração. Aquelas escolhas que nunca sabemos se vão dar certo na vida, se vamos sofrer com elas. Mas há outra forma de viver? Se não cair, nunca saberei se as minhas pernas são capazes de se levantarem e caminharem de novo. Se não sofrer, nunca saberei dar o devido valor à felicidade. Se não chorar, como vou saber o valor dum sorriso? Se não amar por ter medo de perder, como é vou saber se aquela era a mão que cabia na minha?
É assim gente, desassosseguem-se! E se quiserem continuar a atravessar o deserto, ao menos levem algumas sementes no bolso, para plantar um oásis.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Caminhos

É dos deuses
tocar fogo às coisas
esperar naturalmente
as sentenças
escritas na cinza.

Fernando Paixão,
É dos deuses



Alguns de nós foram criados pelo sonho dum cadáver e nasceram já mortos ou morreram na vida. Outros são velhos na vida, não na idade, e deixaram-se ficar à soleira da porta a ver os outros passarem, pianos desafinados sem saberem em que tom tocar. Alguns de nós vão pela vida como vagabundos a quem mandaram um dia ver o fim de todas as estradas do mundo.
Alguns de nós andam pela vida como barcos de velas enfunadas e caminham velozes pelos mares do mundo, sem encalhar, sem naufragar, as quilhas reluzentes e altaneiras, as velas da mais pura tela, mas sem porto seguro.
Alguns de nós parecem caminhar sobre as nuvens, olhando para os outros por cima, como se os restantes mortais fossem apenas formiguinhas. Outros, como eu, andam um pouco ao sabor do vento, do sol, da chuva e das tempestades e das ondas do mar, feiticeiros e feiticeiras da vida, mas não seguem nenhum daqueles caminhos. Podem não saber qual o seu destino final, mas sabem onde pisam e por onde não querem ir. Não vão atrás do rebanho. Não somos pastores, nem predadores e não guardamos rebanhos. Vamos pela estrada do meio. Aonde nos levará?

Castelos

Uma risada
e uma lágrima
não são iguais
porque
um coração
é uma risada
batendo feliz
e a lágrima
é a tristeza
da dor
do coração
que está infeliz

Thales Maskalenka, 7 anos




Nós construímos castelos pela vida fora. Com altas torres, passarelas e passagens internas, grandes ou modestos. Não importa se são de areia, se os construímos nas nuvens ou se são erigidos com as pedras que encontramos no caminho, à boa maneira de Fernando Pessoa. O problema é que a maior parte das vezes deixamos os sonhos do lado de fora. Esquecidos algures. Ou em nenhures.
As crianças também constroem castelos. De areia, na praia. Sabem bem que o mar nunca os deixará intactos. Mas insistem. E quando as ondas vêm e levam num ápice tudo o que levaram meio dia a construir, primeiro elas hesitam, podem até fazer beicinho, mas depois batem palmas, riem e recomeçam. E nós, o que fazemos?
Quando os nossos castelos caem por terra, nós choramos, gritamos, desesperamos e esperneamos. Somos as pessoas mais infelizes do mundo. Não percebemos que tudo o que temos de fazer é mesmo recomeçar. Não interessa perder muito tempo a analisar porque ruiu. Se era demasiado frágil para resistir às ondas, se os sonhos ficaram do lado de fora e nós não fomos capazes de suster a derrocada ou se demos demasiado poder a alguém para desmoronar a nossa vida assim, dum momento para o outro. Não importa. Interessa sim, é saber que o próximo castelo tem de ser mais forte, resistente às ondas e abalos, mas suficientemente arejado para que o vento passe por ele, e os sonhos venham e vão, à mercê do nosso viver.

Angelus

Angelus officii nomen est, non naturae. Quaeris nomen huius naturae, spiritus est; quaeris officium, angelus est; quaeris officium, angelus est, ex eo quod est, spiritus est, ex eo quod agit, angelus.

 
Santo Agostinho



Eu tenho um anjo!

Quando eu nasci, o meu anjo disse que ficaria comigo, prometeu que seria meu companheiro de viagem, meu amigo, mas pediu segredo. O meu anjo não me prometeu uma vida feliz, nem isenta de mágoa. Prometeu sim que Deus não me daria maior dor do que aquela que eu pudesse suportar. Prometeu que eu seria maior que toda a raiva, desespero e tristeza que encontrasse no caminho. E que os sorrisos, o amor e a paixão haveriam de chegar e partir, porque são apenas empréstimos, para nós usarmos e darmos aos outros.

O meu anjo prometeu-me que, como um dia disse um escritor poeta, eu poderei vir a ser apenas mais uma pessoa para o mundo, mas que me enviará alguém para quem eu serei o mundo. Nos meus momentos de dor, eu sinto as suas asas limparem as minhas lágrimas. E sei que estará sempre onde eu cair, para me pôr as asas por baixo. Pronto para juntar às suas asas as minhas penas. E para lutar a meu lado nas pequenas guerras da vida.

Ele está comigo proque eu lhe peço. Ele vem quando eu o chamo. Por amor, somente. E vem sem se fazer anunciar por trombetas de glória nem luzes douradas. Vem, mesmo despido, sem mantos púrpuras nem coroas brilhantes. Ouço-o nas vozes dos amigos, das crianças, dum desconhecido. Oiço-o na natureza. Nas rimas dum poema ou duma canção. Nas palavras do velho vagabundo que me abençoa pela parca esmola que lhe dou. No coração duma criança por nascer. Nas cordas dum violino que chora. Vejo-o nos olhos enormes e lindos da minha filha, filha das estrelas que Deus me emprestou para amar. Não o oiço com os ouvidos, não o vejo com os olhos, mas somente com o coração e a alma, porque esses nunca nos enganam. Eu nunca estou só. Eu tenho um anjo.


Para H. e K. Eles sabem!

Assustador

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Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!
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Mateus 6.22-23



Este mundo pode ser um lugar aterrador!
Sem ninguém á nossa espera quando regressamos a casa com a solidão cosida à pele, como uma máscara, que aa mãos já não têm força para arrancar.Sem ninguém que se preocupe porque nos atrasámos. Sem ninguém que nos conheça e se importe connosco. O próprio mundo ignora que existimos e, se por acaso não o ignora, está-se definitivamente nas tintas para a nossa existência.
Este mundo pode ser um lugar aterrador! Sem ninguém a quem dizer boa noite, ou bom dia, falar da vida da vizinha do último andar, ou mesmo ficar lado a lado em silêncio, com a cumplicidade dos companheiros de jornada.
Este mundo pode ser o lugar mais aterrador que existe! Sem um lugar para regressar ao fim do dia. Sem saber se se vai ter uma malga de sopa, ou mesmo só uma concha de água quente para aconchegar o estômago, enganar a fome e aquecer a alma. Ou uma manta para abafar o vento frio do inverno. Ou uma boca de metropolitano para que o corpo absorva o ar quente dos subterrâneos e das máquinas de aço e ferro.
As pessoas deste mundo também são assustadoras! Sem que um só da multidão que passa por nós nos pergunte porque choramos, se estamos bem, ou sequer páre a sua marcha apressada para nos levantar do chão. Noites passadas na escuridão, debaixo duma ponte, ou num vão de escada, à mercê dos nossos medos ou dos que gostam de se divertir á custa dos mais fracos, as horas a partilhar o lixo dos outros com os animais abandonados... Assustador, não é?
Estar-se nas tintas para a dádiva da vida é bom quando estamos no abrigo do conforto das nossas casas, da nossa família e dos nossos amigos, com os nossos problemas quotidianos. Desejar a morte também é bom quando tgemos os olhos voltados do avesso, a verem para dentro, vendo quão miserável é a nossa vida e que enormes e insolúveis são os nossos problemas. Vamos a correr (bom, alguns de nós) quando um amigo nosso a 200 km de distância partiu uma perna a fazer sky, mas ali na esquina mais próxima, um velho foi maltratado para lhe roubarem a mísera pensão, e ninguém acudiu aos seus gritos. Medo, covardia? Não interessa. Vivemos em redomas de indiferença porque o mundo é assustador!
Hoje uma mulher chorava convulsivamente á beira-rio. Passaram por ela famílias felizes (eu quero crer que eram felizes!), desportistas de fim de semana, pescadores pachorrentos com todo o tempo do mundo. Todos a olharam. Nenhum teve um minuto para se aproximar e lhe perguntar porque chorava ou se precisava de ajuda. E quando finalmente alguém sacudiu a covardia e a indiferença e se incomodou com o choro e lhe perguntou se podia ajudar, ela abriu os seuis enormes e bonitos olhos, de espanto e de dor. Incrédula. O marido tinha-a posto fora de casa, acompanhado pela sua amante fatal, a bebedeira que todas as noites o transformava numa besta desumana. Já era costume. E tinha para onde ir? Ah, aquilo passava-lhe ao fim dumas horas e depois ia à sua procura com mil e uma desculpas. Ela é que já estava farta e apeteceu-lhe chorar ao pé do rio.
Se todos nós concordássemos em juntar numa grande e única pilha todos os nossos problemas, angústias e dores e depois repartissemos equitativamente esse monte por todos, decerto a maioria se contentaria em retirar de lá exactamente o que lá tinha colocado. Isto não é assustador?

Aceitando o passado

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Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass, of glory in the flower;
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;
…/…
William Wordsworth




Aceitar não quer dizer que queira ou possa fazer as coisas voltarem a ser o que foram nem estar feliz com o que fiz ou que aconteceu. É apenas aceitar o desafio da mudança e saber que tenho de seguir em frente, sem culpas, sem mágoas, procurando outros esplendores na relva. Engasgada com a saudade, claro que sim, de vez em quando. Mas a relva continuará sempre verde e refrescante, o esplendor compete-me a mim fazê-lo.